SEMINÁRIO NACIONAL AFRICANIDADES E AFRODESCENDÊNCIA: FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO DAS RELAÇÕES ÉTNICAS

SEMINÁRIO NACIONAL AFRICANIDADES E AFRODESCENDÊNCIA: FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO DAS RELAÇÕES ÉTNICAS

23 a 27 de março de 2009 – Fortaleza – Ceará

No seminário nacional “Africanidades e afrodescendência: formação de professores para a educação das relações étnicas”, evento realizado em Fortaleza, no Ceará, entre os dias 23 e 27 de março, nas unidades de educação da Universidade Federal do Ceará (UFC) e em espaços sindicais e culturais, estiveram presentes professores das redes de educação pública e privada, pesquisadores dos temas da afrodescendência, estudantes de graduação e pós-graduação, membros dos movimentos sociais e sindicais, moradores de comunidades de quilombos.
As atividades foram muito ricas nas suas formatações e nos assuntos apresentados e debatidos nas palestras e oficinas. Houve diversificação nos campos de formação dentro da ótica da interdisciplinaridade, com abrangência na formação das disciplinas de Educação Física, Matemática, Informática, Biologia, Literatura, Cultura e História, subsidiando conteúdos didáticos – teóricos e práticos – para a formação de educadores, com vistas à efetivação da lei 10.639/03.
Primeiramente (e de extrema importância), é necessário concatenar a história através de pesquisadores, pois a história dos afrodescentes já existe, mas o real plano piloto a ser apresentado não é articulado realmente. A concatenação de nossa história afrodescendente, ao ser compilada e já apresentada pelos movimentos sociais, será um episódio de grande ruptura, ou até mesmo um quase ato revolucionário. Os movimentos sociais, com isto, irão preconizar um grande vislumbre para a nação, ou até mesmo poderão sobrepujar o meio acadêmico, que emperra o processo criativo de nossos intelectuais orgânicos.
É fato o não cumprimento dos conteúdos indicados pela LDB para o ensino básico de educação. É justamente por sua capacidade libertadora que esses conteúdos têm sido evitados nos cursos de licenciatura e Pedagogia das universidades brasileiras. Hoje, a história oficial acadêmica não retrata a realidade dos séculos vividos pelo povo negro no Brasil. É preciso um enfoque original, com base na filosofia africana e sua cosmovisão, enfatizando os conceitos teórico-práticos de ancestralidade do corpo, assim como as teses sobre raça e território enquanto dinâmicas dos espaços geográficos da negritude. Elas trazem à tona as continuidades existentes na grande diversidade de manifestações das culturas de matriz africana, as experiências específicas das populações negras na sociedade brasileira, levando em conta a diversidade de origens com a presença de outras etnias e a variedade de localidades brasileiras.
Em sua palestra, o filósofo e pedagogo Jacques Gauthier citou a palavra sociopoética e esclareceu sua essência, remetendo-me a episódios da minha própria infância, onde (eu não entendia muito bem) minha mãe, tia e avós sempre comentavam sobre os fatos que tinham presenciado, ou sobre outros transmitidos oralmente, reconhecidos ou transferidos, dos saberes de meus ancestrais, sobre suas experiências medicinais, práticas de saúde, religiosidade, movimentos do corpo na dança, festas, rituais e conhecimentos de terceiras religiões que não seguiam a sua filosofia, mas dividiam algumas crenças; o ecumenismo.
Estes conhecimentos podem ser remetidos a pesquisa sociopoética, que é um método novo de construção do conhecimento coletivo, cujos princípios são a valorização dos sujeitos da pesquisa como co-responsáveis pelos saberes produzidos, o reconhecimento da importância do corpo, da criatividade do tipo artística, considerando a dimensão eticoestética e política da produção do conhecimento. A sociopoética se apresenta como uma caixa de várias ferramentas, que permite desenvolver a produção do conhecimento, levando em conta os processos subjetivos e comprometendo-se com uma maior autonomia dos envolvidos e valorização de saberes diversos (científico, filosófico, artístico, intuitivo), respeitando as suas diferenças.
Além disso, como toda construção humana, toma a produção de conhecimento como interessada e politicamente objetivada. Na essência, a sociopoética considera o corpo inteiro – emocional, intuitivo, sensível, sensual, gestual, racional, imaginativo – como fonte de conhecimento. Segundo Gauthier et al. (1998, p.173): “[…] é uma característica da sociopoética buscar além (ou dentro) do corpo, um outro corpo […] um corpo recalcado […] Este corpo sabe […] muito mais do que a fala explícita e consciente, muito mais do que a razão”.
Hoje, as estruturas governamentais acadêmicas e as metodologias de extração do conhecimento e multiplicação do saber para a população brasileira negra são viabilizadas e formatadas no estilo eurocêntrico. Elas não retratam a raiz da situação de forma funcional, as realidades, carências e anseios de aprendizagem deste povo. Soluções sociais para a população negra sempre esbarram e desafiam o modelo capitalista vigente. O direito autoral neoliberal do saber, por exemplo, é uma das ferramentas que dificultam a socialização e oficialização de novos conhecimentos ou conteúdos base da racionalidade, assim como a dinâmica temporal de estrutura e transferência de conhecimento de ensino. Portanto, a valorização da cultura afrodescendente tem que ser imediata, sobrepondo-se a todas as vias que não têm respeito pela igualdade racial e fazem sucumbir mitos, folclores e culturas populares. É preciso reafirmar as ciências dos conhecimentos ancestrais africanos e afrodescedentes.
Durante o seminário, foi chamada atenção sobre a importância da inserção dos movimentos sociais organizados na Conferência Nacional de Educação (CONAE), que acontece de 23 a 27 de abril de 2010, em Brasília. No evento, será debatido o Plano Nacional de Educação e suas diretrizes e estratégias de ação propostas pelo Ministério da Educação (MEC).
Outra pauta importante são os veículos comunicação como auxiliares na questão de ensino e valorização da aprendizagem intelectual para a população brasileira, que faz uso largamente dos aparelhos de televisão no seu cotidiano. A mídia trabalha muito bem, atingindo seus objetivos, em relação a desmobilização dos interesses dos movimentos sociais e das entidades da classe trabalhadora. Ela vende, por imagens, o capitalismo desenfreado ao povo, que em geral mantém gestos e comportamentos de repetição e contemplação.
A TV Pública é o fato novo e uma alternativa perante essa realidade, onde os parceiros sociais devem estar na composição e gerenciamento, apresentando outra via contra as redes nacionais de televisão que produzem novelas e programas com roteiros e enredos que desconsideram as relações raciais, o preconceito e a discriminação. Essas emissoras colocam o sujeito negro como idealizador e propagador do próprio preconceito, de transgressões políticas financeiras, e reforçam um estereótipo negativo na formulação de seus personagens. O mesmo ocorre em seus telejornais, cujas reportagens descaracterizam conceitos construídos pela luta de combate à discriminação racial no Brasil.
A mídia, no geral, tem diminuído o espaço para divulgação e promoção de atividades, manifestações e eventos relacionados a datas históricas, ou fatos, ou casos de racismo, ou para expor pontos-de-vista do movimento negro organizado, procurando na maioria das vezes ouvir ou dar espaço a pessoas que não têm relação com a luta de combate ao racismo. Em outros casos, as emissoras distorcem o conteúdo das matérias para dar vazão à posição da empresa jornalística. Por isso, a CUT e os movimentos sociais devem estar presentes nas conferências de comunicação, para contribuir e construir a mudança através da TV Pública, elaborando um programa sócio-cultural de igualdade racial, reparação histórica do povo negro, valorização da diversidade daqueles que construíram esse país, não só para a classe trabalhadora atual, mas também para os futuros trabalhadores da sociedade brasileira.
Ao longo do seminário e seus debates, podemos concluir que houve avanços com bases objetivas para esta luta na educação, na elaboração e prática científica, filosófica, cultural, nas estruturas revolucionárias que servem como elemento estratégico para a luta socialista pela igualdade racial. Na atualidade, esta afirmação significa que o sujeito revolucionário deve ser pensado no plural e na transferência de conhecimento articulado.
Pesquisas e estatísticas expõem a realidade das desigualdades sócio-culturais do povo negro como questão de classe, condição econômica e estrutura produtiva. No Brasil, as estruturas que erguem as desigualdades têm um componente racial poderoso e que não se restringe a uma simples herança histórica da escravidão. Elas são estruturais e históricas, transcendem os diferentes regimes políticos e modos de produção, porque pautam os elementos fenótipos como um dos fundamentos das relações sociais brasileiras. Mas a educação revolucionária dará autoestima e subsídios para uma estrutura socioeconômica e cultural para este povo brasileiro. Porque o conhecimento liberta.

Manoel Nascimento

Diretor Sindicato dos Aeroviarios POA

Membro da CECDR / CUT-RS

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